BÁRBARA ARAGÃO transita pela arte tão visceralmente que tanto nos emociona quanto nos desconcerta. Nesse conjunto de obras, reunindo poesias e desenhos, desconstrói a realidade através de uma viagem às mais sublimes ou vis emoções humanas, trabalhando esses anseios ora de forma sutil, ora de forma ríspida, levando-nos a oscilar entre a comoção e o choque.
Para ela, “todo ser humano é afeição e aflição. Por isso é preciso vasculhar bem no fundo os sentimentos camuflados e fazê-los emergir através da escrita, relembrando as pessoas de anseios já esquecidos”.
A cada leitura novas possibilidades de interpretação são transmitidas, resultado da junção dos textos com as imagens, também produzidas por ela.
Destacam-se as temáticas “Costumes da Terra”, retratando as tradições das cidades interioranas; “Luz”, “Pedido” e “Certeza”, que demonstram um amor crescente seguido da inevitável decadência, vislumbrada nos poemas “Úlcera”, “Lágrima” e “(Des)projeção”.
Autora do blog Notas e Versos (www.notaseversos.blogspot.com), onde desde 2009 vem publicando seus trabalhos, esta é a primeira exposição das obras fora do blog.
Saiba um pouco mais sobre ela em entrevista no www.pessoabonita.com.br/blog e no www.pessoabonita.com.br/kids.
Clique sobre os tópicos para visualizar seus conteúdos. |
(DES)PROJEÇÃO: Poesias e Desenhos
|
 SAUDADE DOS OITO ANOS
|

Saudade dos oito anos
Escurece cada vez mais cedo.
As meninas de saias rodadas, na esquina,
não têm quinze,
têm doze.
E os pequenos heróis
(tão frágeis)
com armas de brinquedo.
Ou armas como brinquedo.
Escurece cada vez mais cedo.
Morte.
Dor.
Sexo.
Medo
do avanço,
do sorriso,
do descanso.
Medo de gente.
Medo da gente.
Do que nos tornamos.
Do decadente.
E no fim dessa longa noite,
todos querem
(por um instante, ao menos)
se iluminar
novamente.
|
|
 ARTIFÍCIOS
|

A velha caça perdura,
universal e meticulosa.
Busca-se, a todo custo,
vida leve, cor-de-rosa.
Saias bem rodadas
para curtos passeios em praças.
Sorrisos bem feitos, sinceros;
fáceis e dados de graça.
Saltos e alguma pintura
fortalecem a frágil faceta.
Há até certo brilho.
Mas os cacos de vidro
continuam na gaveta.
|
|
 SUBLIME AÇÃO
|

Ele pintou o meu rosto
como pinto a mim mesma.
Com gosto.
A esmo.
Um eu que não sou.
Na parede a imagem.
Doce e falsa miragem.
Autoritário regime
imprime
sublime
ação.
Sublima
a sina
em cima
de mim.
Ensina:
não é o meu "eu",
mas sou eu
mesmo assim.
|
|
 COSTUMES DA TERRA I (A URGÊNCIA)
|

Menina dos trinta,
sai de casa logo.
Casa logo.
Dê casa logo.
Dê em casa logo.
Dê jeito de casá-lo
(e amá-lo, talvez).
Moça sozinha na vida
não tem esperança.
Sem sonho, amparo.
Sem pão nem criança.
E na praça ainda se atrevem:
“Cartório logo.
Casório breve.
Barriga Cheia.
Cabeça leve.”
|
|
 COSTUMES DA TERRA II (A ESCOLHA)
|

Marido de bom pai
bom pai
será.
Bom esposo.
Bom pagante.
Bom amante.
Ao mercado
(e à zona)
freqüentemente.
Boa esposa
que agüente
no sofá.
“Marido de bom pai bom pai será”.
E aqueles sonhos loucos
vão morrendo pouco a pouco
em um canto do sofá.
|
|
 COSTUMES DA TERRA III (A FESTA)
|

Noite.
Terra dos maus
e meninas
da
vida.
Noite
dá
vida
àqueles que não vivem mais.
“Noite?” – dizem:
“Jamais!”
Revela.
Entrega:
“Esses não têm paz”.
Mas digo eu:
Tortas luzes
e sons, basta olhar,
dirão o que o Sol,
mesmo brilhante,
jamais dirá.
|
|
 COSTUMES DA TERRA IV (O DESTINO)
|

“Vestido rodado
demais, mocinha,
nenhum marido agüenta.
Recusam comida sem sal,
mas reclamam
de muita pimenta.”
Linda menina.
Abastada.
Bem-criada.
Educada
na tradição.
Triste esposa
do amanhã,
que prostrada num divã
busca clara solução.
|
|
 EGOS
|

Não querem morrer.
Procuram, o dia todo,
pela eternidade.
E, para isso,
enxugam valores,
ferem a própria vida
e sacrificam a verdade.
Dão-se por inteiro.
E insistem para que seus sacrifícios
mudem a história.
Para a imortalidade, clássica receita:
doar a própria vida
em troca de memória.
|
|
 A SUJEIRA E A VERDADE
|

A crosta de terra e sujeira
que se formou nos pés
daquela Igreja
lembram-me minha vida.
Envolve as paredes até ficarem pardas.
Faz as estátuas sobreviverem frias e amargas.
E estas,
com o rosto – e o humor – enegrecido
passam a contar vantagens com seus sacrifícios doídos.
Essa crosta revela o tempo,
esconde a boa vontade.
Endurece a alma dos mais nobres homens
e ofusca a mais iluminada verdade.
Mata, não só a leveza,
mas a jovialidade, a resignação e a benevolência.
Assim também sou eu.
Sujam-me tantos fatos, atos e “poréns”,
que já não sei qual é a minha essência.
|
|
 DESALENTO
|

O mundo nada muda.
O mundo não dá muda.
Nada muda
o mundo.
E o mundo,
mudo.
O não muda.
Ou não muda?
O nada, sei, nada dá.
E nada muda no mundo.
E
n
a
d
a
d
á
m
u
d
a
n
o
m
u
n
d
o.
E eu? Muda.
E o mundo? Nada.
|
|
 LUZ
|

Seus olhos são como estrelas
que iluminam com imensa força
as noites cinzas deste morno outono
e aquecem com todo cuidado
as frias manhãs de penoso sono.
Ah, e foi numa dessas noites,
ou dias tão escuros quanto,
que os olhos brilharam mais
ou tanto quanto as estrelas.
E os lábios não puderam frear
o sorriso fugido ao entendê-las.
(Ouvi dizer que se chama amor)
Para mim, tanto faz.
Conquanto se faça
- o que for preciso -
tantas e quantas vezes
forem necessárias
para que as estrelas
outra vez nos una e,
de repente,
seus olhos toquem
e iluminem os meus olhos
novamente.
|
|
 LUZ (II)
|

Fonte de luz que ilumina o seu corpo,
e ao meu estremece.
Fonte tão pura que do mundo, eu vejo,
facilmente se esquece.
Mostre-me a sua alma,
nascente que me cai
como um presente de Deus.
Dê-me essa calma,
que tentarei realizar
alguns dos desejos teus.
Fonte de vida que,
com águas tão verdes e azuis,
faz-me deixar toda a cruz para trás.
Seus olhos:
fonte de amor, meu bem,
da qual quero sorver cada dia mais.
|
|
 OS DIAS DE GLÓRIA
|

A doçura da glória
e sua aparente leveza
submergem o mundo
e põe, sob os teus pés,
sensível fortaleza.
Há um atinado alívio,
que surge diante desse mundo
tão aberto e afim.
Podemos partir.
E fazê-lo eterno.
Ou ficar.
E gozar lentamente o seu fim.
|
|
 PEDIDO
|

A noite, libertina, nos abriga.
Mas logo (e tão logo) em seguida,
vem o dia, casto, nos obrigar.
Por isso, meu amor,
uma prece em oração
quando estou junto a você:
que a noite dure eterna;
que não desatemos nossas pernas;
e que o Sol, um dia ao menos,
esqueça-se de amanhecer.
|
|
 DEZ SEGUNDOS
|

A chuva no vidro do carro parado
monta um cenário impressionista.
Distorce as ruas
as luzes
as emoções
e a vista.
Faz-me fazer metáforas sem sentido:
o gelo, a correnteza
e tudo o mais que tenho vivido.
Às vezes dá um arrepio na espinha de pensar:
quem diria que tudo ia dar nisso?
(Então surge um discreto sorriso,
meio sem vontade, sem compromisso).
E a lágrima que começa a vir
com o transbordar da emoção tardia
paralisa,
silencia e
(de repente)
dá um passo atrás.
Você apareceu no portão.
Sorrio.
Hoje, nada disso importa mais.
|
|
 CERTEZA
|

O passado nos assombra.
Mas ouça, meu bem:
esses temidos cacos de vidro,
mesmo se juntados,
nunca serão cálice outra vez.
Recolho-os e os passo.
(Assim ganho mais espaço).
Eu sei,
podem até fazer desses cacos,
campos ricos e ensolarados,
rios límpidos e afortunados,
amores pueris e bem aventurados.
Para mim,
são só cacos.
Incapazes de voltar à mesa
ou de substituir a beleza
das flores que agora vêm;
da fé que me esteia
do néctar que me nutre
e da luz que me mantém.
|
|
 (DES)PROJEÇÃO
|

Quem é você
que não mais vem
em seu cavalo branco,
acalmar meu pranto,
e me tecer de novo
o mais belo canto
já ouvido nesses jardins?
Quem são esses soldados
(agora bem armados)
que não mais se alinham
ou sequer replicam por mim?
Nossos cetros enegreceram.
Suas flores-de-lis padeceram
na água turva
sob os meus pés.
Foi depois daquela chuva
que lhe tirou o viço,
e, feito um mal feitiço,
tornou-te quem tu és.
|
|
 LÁGRIMA
|

Lá no alto da montanha,
nossa fonte já não acho.
Nessa mata, secas folhas.
Secas pedras no riacho.
E no meio de um andar
tão descrente e cabisbaixo,
tão logo avisto teu rastro,
a tristeza me contempla
de uma forma um tanto vil:
faz brotar da minha fonte,
não tão seca como antes,
o mais triste e belo brilho,
que um dia já existiu.
|
|
 FIM DE UM AMOR DE LONGOS ANOS QUE ME LEVOU A PAZ, A VONTADE DE VIVER, TIROU-ME TUDO E SÓ DEIXOU O PENSAMENTO EM VOCÊ
|

Não sei,
mas está dificil respirar.
|
|
 OMBRO AMIGO
|

Em meio a pedras,
numerosos buracos,
com pés calejados,
sangrando cansaço
e um velho temor,
avisto uma luz
que, como um casaco,
esquenta-me os lados;
dá-me forte abraço
e um pouco de amor.
Por sorte ou destino,
adeus desatinos,
angústias e afins.
Dizem que Deus,
ao ver-me assim,
pôs ao meu lado
um anjo sagrado
orando por mim.
|
|
 DÚVIDA
|

O ardor que no corpo queima
é a dor que na mente teima.
Aos poucos, com força,
em tudo se espalha.
Como fogo em mata.
Como água em calha.
Divulga e põe em pauta
a grave e humilhante falta
(feita para esquecer).
Domingo, dor e ardor na maca:
sofrimento de amor
ou simples ressaca?
|
|
 ÚLCERA
|

Porque os seus braços eram nus.
Porque os seus braços eram meus.
Porque eu gostava de ver
as marcas de expressão
que se formavam
em torno de seus lábios
quando eles
apertavam um cigarro.
E de quando soprava
a fumaça com força
e me sorria
um sorriso indelicado.
Gostava de suas mãos.
Jazia-me em seus laços.
Perdia-me em seu cheiro.
Dormia em seu abraço.
E pensava ter encontrado
a mais pura das verdades.
Por isso esse aperto em tudo,
que é a dor da minha saudade.
|
|
 O CANTO
|

Morena tão doce
que, quando avistei
seus olhos alertas,
tão puros, intensos
(tom de descoberta),
encantei-me e não pude,
deixar de pedir,
com meu jeito rude,
um breve encanto.
O primeiro canto.
Sem qualquer alarde,
a menina, ladina,
abriu-me um sorriso,
e com toque preciso
uma graça me deu.
Permitiu que seus lábios,
exatos, em cores,
curassem minhas dores
ao tocarem os meus.
|
